Já conhece o Pirisca Grecco?

No último dia 9, o Boteco Tchê – localizado na Cidade Baixa, em Porto Alegre – preparava-se para receber mais uma edição do Clube da Esquila, projeto idealizado por Pirisca e sua Comparsa Elétrica. Enquanto o palco se preparava para receber mais um belo show, subimos até o terraço para prosear com esse gaúcho e entender um pouco mais sobre toda a sua relação com o cenário musical.

Natural de Uruguaiana, Afonso Machado Grecco, ou simplesmente Pirisca Grecco, conta que já nasceu numa família musical: embalado pelo avô gaiteiro e o sangue “Fagundista” da mãe.

“Eu sou de uma família de quatro irmãos homens, eu sou o mais moço – a rapa do tacho como a gente diz -, e os meus irmãos todos faziam aula de violão… e isso, eu tinha 4 ou 5 cincos anos, e após a aula, eu pegava o violão deles, pegava a gaita, enfim, e saía tocando. […] a trilha sonora era os LPs da Califórnia da Canção. Então isso despertou em mim a vontade de tocar. ”

A família, como ele mesmo assume, insistiu para que ele seguisse uma profissão “normal”, mas após 6 álbuns lançados e diversos prêmios ganhos, está comprovado: a música nascera junto com ele!

Clube da Esquila – um abraço coletivo

O projeto Clube da Esquila surgira há quatro anos, na necessidade de um intercâmbio musical:

“[…] eu senti que a gente tá muito segmentado. O Rio Grande tem os ‘gauchinhos’, tem o reggae, o rock… o próprio Açorianos (premiação cultural que ocorre anualmente no RS) trata disso, né?! Categorias diferentes, nos separam muito.”

Essa forte segmentação musical que ocorre no RS atinge a própria Comparsa Elétrica – banda que acompanha Pirisca nos shows -, já que fundem a música nativista com tantos outros estilos e instrumentos. Para uns, “magrão” e para outros “gauchinho”, a falta de categorização para a Comparsa faz com que ela siga na busca pela fusão de diversas vertentes em cima dos palcos.

A busca aqui é por artistas que são referência em suas áreas, para que assim possa ocorrer essa troca de conhecimento e a fusão dos públicos.

 “E eu acho que isso é a função do Clube, é desmistificar, desrotular e fazer com a que a música vença, esteja em primeiro plano, independente se eu tô aqui de bombacha ou de dread, né?!”

Além da importância musical, o Clube ainda é a garantia do encontro mensal entre grandes amigos. Músicos como Humberto Gessinger, Serginho Moah, Tonho Crocco e Tavares já participaram dessa celebração sonora. Junção essa que já rendeu grandes encontros, como o do Humberto com o Rafa Bisogno (seu atual baterista) e do próprio Tavares com o Pirisca – o que desencadeou muito mais que uma parceria. É a arte vencendo, mais uma vez.

“Então a gente vai lutar, com toda a força, pra manter esse Clube de pé, enquanto a gente tiver saúde!”

“Eu vi ele na TV uma vez, numa viagem com a Fresno, e tava tocando no celular uma música nossa, e já fiquei curioso… também os amigos comentaram ‘pô, o pessoal do Fresno apareceu na MTV Na Estrada, ouvindo a Comparsa’. ”

Foi através de uma “intimação”, nas redes sociais, que Pirisca procurou conhecer um pouco mais daquele guri de Camaquã que vinha fazendo covers de suas músicas nos shows. E numa tarde, churrasqueando em Porto Alegre, os dois gaúchos descobriram as suas afinidades musicais e iniciariam uma parceria.

“O nosso encontro foi pela internet, pelas redes, que eu vi que ele gostava da banda e eu fui atrás mesmo pra tirar a limpo isso aí. E quando a gente se conheceu, eu vi que ele realmente tocava todas as nossas músicas, sabia, era por dentro do repertório. E foi uma grande alegria! Ele tinha o som da Comparsa como uma referência!”

Pirisca não esconde a felicidade dessa união, afinal, foi através dela que puderam tocar juntos em vários estados e festivais. Está no linguajar, nos costumes, nos hábitos e nas preferências; a parceria era inevitável, e uma música seria a celebração ideal.

 “Dando um grande exemplo pros veteranos também, porque alguns gaúchos daqui saíram e foram sozinhos né?! Não tiveram essa preocupação de levar mais ninguém, nem revelações, nem referências.”

Pirisca e Esteban

Juntando uma melodia daqui, com uma letra de lá, nasceu “Capital”, a música que – mesmo não entrando no último CD do Esteban – chegara para celebrar e dar mais um passo nessa parceria: uma versão dedicada a uma das canções do Tavares.

Assim, encerrando o SLMDTV, Pirisca resgata em Chacarera da Saudade toda aquela referência nativista e saudosista do Esteban. Uma euforia melancólica que põe fim em mais um ciclo – que está apenas começando.

 “O Paulinho Goulart fez toda a produção dessa faixa aqui em Porto Alegre, o que nos possibilitou cantar. Eu fui um pouco inseguro no começo também, porque eu não sabia que personagem representar ali também, se tinha que ser um ‘senhor gauchão’, mais ‘magrão’, ou tinha que ser mais eu mesmo, entendeu?! Então, a direção do Paulinho nos deu esse norte.”

E junto com o Paulinho o Rafa Bisogno, Pirisca vai sentir na pele todo o retorno dos fãs do Esteban, além de se permitir à máxima: “Quero ouvir vocês! Cantem comigo agora!”. Será uma experiência nova (e única), tanto para os músicos que estarão no palco do Opinião, quanto do público que lá forem prestigiar.

“Eu acho que ele foi muito corajoso, como sempre, ele é um cara ousado e eu senti que não foi um favor, né?! Acho que foi uma homenagem.”

Apesar de sentir-se um pouco inseguro no começo, Pirisca reconhece a naturalidade que a canção ficou em sua voz e alegra-se em ser um “corpo estranho” no disco. Disco esse que ainda exala um pouco de Comparsa Elétrica, por toda vanguarda e ousadia que carrega.

Ao ser questionado sobre as suas referências musicais, um nome soa forte: Texo Cabral – o flautista da Comparsa Elétrica.

“O Texo, que a gente chama de “velho”, ele é um grande exemplo e é a maior influência da Comparsa nesses 10 anos de parceria. Ele é que põe na mesa todos esses discos do Dori Caymmi, Michel Petrucciani… a gente conheceu tudo que tem de bom através do Texo Cabral.”

Pirisca ainda resgata as influências que teve através do folclore argentino, um pouco de Mercedes Sosa e até do candombe uruguaio. Aqui, a fronteira é inevitável, e as palavras em espanhol surgem naturalmente.

“Então, a influência acho que é esse vento que sopra aí na fronteira, onde Uruguaiana é um pontinho de encontro.”

Pirisca pretende (e logo!) lançar um álbum do Clube da Esquila, contando com todas as participações especiais que o projeto já teve. Ainda servirá como uma real libertação musical, já que poderão somar os estilos e releituras que quiserem.

“E o Tavares se colocou inteiramente à disposição para ajudar nesse disco, pra nos dar uma direção, enfim… […] pra que a gente possa dar um pulo mais alto, sair desse nosso pequeno universo dos festivais e das mil cópias. Pra poder fazer um álbum que possa ser apreciado pelo Brasil todo.”

E traduzindo musicalmente toda essa conversa, composta por Érlon Péricles, Em Todas As Partes é uma milonga que fala dos sonhos; dessa vontade de transcender da Comparsa. Também exemplifica toda essa parceria com o Tavares, que vem dando a chance de enxergar e explorar o resto do país.

Comparsa Elétrica

“Estar com a Comparsa Elétrica é o que me permite a excelência, o que me permite ser irretocável. Nós temos uma banda formada por seres humanos, pessoas de carne e osso, com sentimento. Estar junto e fazer um som juntos nos garante a excelência; é o momento em que a gente é impecável, que a gente não sente dor. E que a gente transcende a coisa humana, a vida real.”

Pirisca Grecco